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Uma das primeiras bibliotecárias de L.A. bateu de frente com os censores

“Purificar a Biblioteca por Meio do Fogo”: Uma das primeiras bibliotecárias de L.A. bateu de frente com os censores.

Alguns dias atrás, recebi um e-mail do CBLDF que falava da inclusão de Tessa Kelso no hall da fama da Associação Americana de Bibliotecas e contava um pouco de sua luta contra a censura. Como tenho um fraco por histórias deste tipo e o Marquito Maia gentilmente se dispôs a traduzir o texto, achei que poderia ser interessante compartilhá-lo aqui.

Na segunda semana de julho de 2017, a Associação de Bibliotecas da Califórnia anunciou os nomes que irão compor o Hall da Fama das Bibliotecas de 2017. Entre eles está Tessa Kelso, que foi bibliotecária-chefe da Biblioteca Pública de Los Angeles apenas por alguns anos na década de 1890, mas que deixou uma marca indelével na cidade e na profissão como uma pioneira da liberdade intelectual, defendendo o seu acervo contra moralistas que queriam “purificar a biblioteca por meio do fogo”.

As batalhas de Kelso contra os queimadores de livros e os detratores da sua profissão foram relatadas na postagem do dia 13 de julho de 2017 de Robert Fernandez no blog do Escritório de Liberdade Intelectual da Associação Americana de Bibliotecas (AAB). Recorrendo em grande parte a informações da época do Los Angeles Herald, o principal adversário público de Kelso, Fernandez mostra como os ataques do periódico contra a biblioteca passaram de alegações de desperdício de verbas a advertências assustadoras de que os livros “indescritivelmente asquerosos” nas prateleiras levariam os jovens à ruína.

Kelso foi contratada como a sexta bibliotecária-chefe da BPLA em 1889, quando a população de Los Angeles era de apenas 50.000 habitantes. Segundo Fernandez, ela implementou uma série de inovações na instituição, já que “a biblioteca adotou o Sistema Decimal de Dewey, desistiu das taxas de associação e começou um programa de treinamento formal para funcionários de biblioteca”.

A primeira menção a Kelso no Herald do dia 21 de janeiro de 1893 foi bastante favorável, com o jornal destacando a biblioteca sob a sua direção como “algo sem igual no estado, melhor até mesmo do que a de São Francisco”, que na época era a principal metrópole com cerca de 300.000 habitantes. No entanto, alguma coisa mudou no final desse mesmo ano, com uma matéria do Herald do dia 13 de dezembro classificando Kelso como “o apêndice dispendioso de uma instituição dispendiosa”, depois que ela moveu um processo bem-sucedido contra a cidade para receber o reembolso de U$200,00 da sua viagem para a conferência da AAB e o Congresso Mundial de Bibliotecas em Chicago.

Sete meses depois, em julho de 1894, a campanha do Herald contra o suposto desperdício de dinheiro na biblioteca continuou. Na avaliação em questão, que infelizmente soará familiar a muitos bibliotecários nos dias de hoje, os repórteres não podiam imaginar que os funcionários de biblioteca fizessem outras coisas além de dar entrada e saída dos livros. Por isso, eles concluíram que os dois empregados mais visíveis ao público – os que supervisionavam o setor de Referência e a sala de leitura principal – deviam estar fazendo quase todo o trabalho enquanto “muitos funcionários com salários elevados… só ficam sentados em gabinetes”.

Isso estava longe de ser verdade, é claro: além da circulação, a equipe de Kelso nos bastidores tinha funções como encomendar, processar, restaurar, encadernar e catalogar livros e outros materiais. Nos tempos antes dos catálogos computadorizados ou da ampla utilização das máquinas de escrever, a última tarefa citada era particularmente demorada, pois exigia um arquivo de fichas meticulosamente escritas à mão para cada item. Mesmo assim, o Herald simplesmente dividiu a circulação mensal pelo número de empregados e concluiu que “o grupo de jovens funcionárias poderia ser reduzido pela metade… contanto que o pessoal bem pago da equipe do [presidente do conselho da biblioteca] sr. Dobinson aparecesse no local público de trabalho e se dedicasse ao trabalho como algumas das moças mal remuneradas”.

Menos de um mês depois, a fúria do Herald passou do quadro de funcionários da BPLA para o seu acervo. Com o título “Uma Revelação Inefável”, os repórteres informaram que a biblioteca dispunha de “romances apresentando atrocidades tão indescritíveis que a própria natureza humana é violada”. Nesse caso, o alvo específico deles era Le Cadet (O Irmão Caçula) de Jean Richepin, que a biblioteca só tinha na versão original em francês. Apesar de Richepin posteriormente ter sido admitido na Academia Francesa, colocando-o entre os “imortais” da literatura francesa, Le Cadet não é uma de suas obras mais lembradas. Fernandez apresenta um resumo do enredo:

A história acompanha Amable Randolin, o irmão caçula do título, que volta ao seu velho lar, herdado pelo seu irmão mais velho, Désiré. Amable cobiça a propriedade e quer tomar o lugar do irmão, primeiro tendo um caso com a mulher de Désiré – que engravida de Amable e tem um filho que logo morre – e, depois, assassinando-o. A mulher de Désiré vai para um convento, enquanto Amable morre em uma metáfora que é um pouco óbvia: o seu corpo nu é encontrado num abraço extasiado com a terra que ele tanto desejava.

As delicadas figuras do Herald afirmaram que “nós limitamos a análise dos detalhes a uma parte muito pequena da obra”, mas disseram que essa rápida folheada foi suficiente para concluir que “este livro horrível seria arremessado com indignação para fora das dependências do mais infame maison de joie [bordel] do mundo”. Além disso, eles acrescentaram, de forma defensiva, que “não nos consideramos pessoas inocentes nem moralistas extremados”.

Levando em conta a sua revelação inefável, o Herald formulou uma teoria segundo a qual a censura governamental é, sem dúvida, perniciosa, mas a censura em bibliotecas públicas não conta muito. Ou, como eles dizem:

Tal censura não faz referência à supressão de ideias ou à submissão da mente, mas relaciona-se integralmente, por um lado, à proteção da juventude ingênua e, por outro, à clara repreensão aos escritores pervertidos e corruptores.

Com certeza, a seleção e a defesa da literatura popular contemporânea da BPLA era realmente algo um tanto quanto incomum para a época, quando muitas bibliotecas ainda destinavam-se exclusivamente a instruir as massas em vez de entretê-las. O Herald, da sua parte, evidentemente era a favor da mentalidade dominante:

A ideia de uma jovem ou um jovem de Los Angeles, ou uma idosa ou um idoso desta ou de qualquer outra cidade, ou uma pessoa de passagem, de qualquer idade ou sexo… entrar em uma biblioteca pública, mantida para efeitos de educação e benefício da população de ambos os sexos, e adquirir tal obra, é o suficiente para petrificar qualquer ser humano bem-intencionado! É lamentável. Em vez de possibilitar tal infâmia na cidade de Los Angeles, seria uma benção para os jovens, os adultos e os idosos, a cidade ser reduzida a cinzas e, depois, ser reconstruída com base em princípios saudáveis.

No entanto, para que os nossos leitores não pensem que este ponto de vista foi universalmente aceito na época, levemos em consideração a imagem praticamente invertida da passagem acima escrita por outro jornalista da Califórnia… Mark Twain:

Quando uma biblioteca bane um livro meu e deixa uma Bíblia completa num canto onde jovens e velhos desamparados podem ler à vontade, a tremenda ironia involuntária disso me deixa contente em vez de irritado.

Na verdade, as partes mais ousadas da Bíblia foram invocadas pelo diretor da BPLA, F.H. Howard, em uma carta indignada respondendo ao pedido de censura do Herald. (Sim, a bibliotecária-chefe Tessa Kelso, segundo consta, era subordinada ao presidente do conselho, Dobinson, e ao diretor Howard). Será que os jornalistas também concordariam em banir o livro sagrado, ou autores como Fielding, Rousseau ou Voltaire? A resposta deles ignorou a pergunta sobre a bíblia, mas surpreendentemente mordeu a isca em relação ao resto:

Os livros em questão são clássicos, e como tal têm um lugar na literatura e um valor para os estudiosos, mas é inquestionável que, para a juventude de ambos os sexos, Fielding, Rousseau ou Voltaire seriam mais nocivos, e que a retirada de tais livros de uma biblioteca pública deveria ser cercada por todas as salvaguardas possíveis.

A carta de Howard também explicava como Le Cadet havia chegado até a biblioteca: atendendo à “grande procura de ficção francesa”, a diretoria havia autorizado a encomenda de tal exemplar junto a um fornecedor de São Francisco. Salientando que seria impossível para a equipe de funcionários ler todos os livros antes da compra, ele disse: “é inevitável que um livro censurável ocasionalmente apareça em uma biblioteca”. Ele aparentemente absteve-se de criticar o cenário imaginado pelo Herald: hordas de jovens angelenos com domínio razoável de francês para ler o romance, mas com uma capacidade correspondente de ficar chocado com o conteúdo.

Uma semana depois, o Herald voltou ao seu tema predileto, reproduzindo na íntegra dois sermões de pastores locais sobre os perigos da leitura de determinados livros. Em sua declamação “Os Males de Livros Torpes”, o reverendo J.W. Campbell da Primeira Igreja Metodista disse que o súbito aumento de popularidade de Le Cadet, desde que este fora mencionado pela primeira vez no Herald, só provava que a comunidade precisava ser protegida de si própria:

Fomos informados de que desde a publicação sobre esse título e a sua condenação por parte do Herald, a procura pelo livro tem sido enorme. O que se pode aprender com isso, se for mesmo verdade? Só temos uma única resposta, a de que as nossas bibliotecas deveriam estar sob a responsabilidade de uma superintendência mais atenta e cuidadosa. Se a procura do público, ou de uma fração do público, é de uma natureza tão depravada depois dele ter sido devidamente alertado acerca do conteúdo perverso de determinados livros e é tão audaciosa e desavergonhada, realmente se faz necessário que a nossa biblioteca municipal seja purificada e contenha apenas o tipo de literatura que corresponde ao interesse do leitor.

Campbell também dedicou bastante espaço ao suposto flagelo da “leitura superficial” e da “ficção leviana” dos romances baratos – sendo que Le Cadet certamente não era um exemplo. No entanto, com as suas capas coloridas, as sensacionais ilustrações no miolo e as improváveis histórias de heroísmo, aventura e crimes horríveis, estes eram os predecessores diretos da indústria dos quadrinhos. Assim como na cruzada contra os gibis na década de 1950, Campbell expressou a sua indignação particular em relação ao gênero policial:

Os livros mais perigosos são aqueles que tentam encobrir a impureza e o crime e disfarçam o seu conteúdo com um manto de atratividade dissimulada. Quantos jovens esplêndidos foram arruinados por livros questionáveis?

(Não deixa de ser irônico que pouco mais de 15 anos depois – ainda bem antes de os gibis de histórias policias surgirem – o próprio Herald mudou de direção e encurralou o mercado de L.A. com a cobertura de “escândalos, crimes e o emergente cenário de Hollywood”.)

Ainda mais surpreendentemente, Campbell antecipou as alegações de Fredric Wertham de que “livros nocivos” poderiam levar diretamente à violência juvenil. Ele citou um diálogo na prisão entre o assassino em série de 14 anos, Jesse Pomeroy, e o editor James T. Fields, que visitou o “menino demônio” em uma jornada de investigação para apurar a influência positiva ou negativa da literatura em mentes jovens. Eis a versão da conversa relatada por Campbell:

“O que você lê?”, perguntou o falecido James T. Field [sic] ao menino demônio, Jesse Pomeroy. “Basicamente só um tipo de coisa”, foi a resposta; “romances baratos, na sua maioria”. “E qual é o melhor livro que você já leu”? “Bem”, ele respondeu, “Buffalo Bill é o meu preferido; é cheio de mortes e imagens sobre assassinatos”. “E como você se sente depois de terminar a leitura”? “Ah, eu sinto vontade de sair por aí e fazer e mesma coisa”.

Na verdade, essa versão da conversa vem de um manual para meninos chamado Kent’s New Commentary, onde o tema foi resumido, simplificado e totalmente “Werthamizado”. Embora o próprio Fields estivesse convicto de que os romances baratos haviam levado Pomeroy a cometer os assassinatos, o seu argumento, conforme originalmente relatado em sua biografia, nem de perto foi tão conclusivo. De qualquer maneira, tudo isto foi possivelmente um ponto discutível no que se refere aos acervos de bibliotecas: considerando que era incomum para uma biblioteca da época ter um romance popular como Le Cadet, romances baratos, então, seria algo totalmente impensável.

Mesmo assim, Campbell entusiasticamente abraçou a sugestão do Herald de que “uma fogueira pública deveria ser instituída para livrar a biblioteca de todos os livros de características questionáveis”. Ele até citou um exemplo bíblico que ele afirmou que justificaria esse expurgo, especificamente Atos 19:18-20, quando o Apóstolo Paulo converte antigos pagãos em Éfeso de maneira tão definitiva que estes trazem os seus livros de magia e os queimam sem se preocupar com o custo. Na verdade, essa passagem é invocada não apenas no sermão de Campbell, como também no futuro sermão (“Caminhos Atraentes do Diabo”) do reverendo Will A. Knighten, ambos dizendo que os livros (ou melhor, pergaminhos) eram obras de biblioteca, embora não haja nenhuma indicação disso no versículo. (Sem mencionar que não existia nenhuma entidade como uma biblioteca pública municipal nos tempos bíblicos; as bibliotecas como a grande e famosa de Alexandria estavam abertas somente aos estudiosos.)

O sermão de Campbell – e uma prece complementar pela alma de Kelso, que só foi comunicada posteriormente pelo Herald – aparentemente foi a gota d’água para a bibliotecária. Naquela mesma semana, ela apresentou uma queixa contra ele por difamação, dizendo que ele havia insinuado que ela “em virtude das suas infrações morais, não era digna do [seu] gabinete”. E tratava-se de uma alegação particularmente prejudicial, ela acrescentou, porque, como bibliotecária-chefe, ela era responsável pela direção de “um grande número de jovens subordinadas” e, portanto, precisava estar acima da repreensão. Alguns meses depois, ela foi favorecida pelo tribunal, que considerou que Campbell não tinha direito a uma isenção religiosa da lei relativa à difamação, como ele havia alegado.

Apesar dessa vitória, Kelso aparentemente estava cansada das batalhas constantes. Em 1895, o mesmo ano em que ganhou a causa de difamação, ela apresentou a sua demissão e mudou-se para o leste para trabalhar em uma editora, onde encerraria a sua carreira. Embora o seu período dirigindo a BPLA tenha sido relativamente breve, a sua tenacidade e inovação na área mostram que o atual lugar dela no Hall da Fama das Bibliotecas da Associação de Bibliotecas da Califórnia é mais que merecido.

Dê uma espiada na postagem original de Fernandez no blog do Escritório de Liberdade Intelectual aqui.

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A editora voluntária Maren Williams é uma bibliotecária especializada que gosta da liberdade de expressão e de salvar cachorros.

Douglas Quinta Reis
Um dos fundadores da Devir

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